O feltro vermelho
Inventário de um recomeço — 5
Quinta crônica em série. Para ler as anteriores, clique aqui (1), aqui (2), aqui (3) e aqui (4).
Florianópolis, 1996.
A sala de visitas é fria. Abro a tampa do piano vertical e dobro o pano de feltro vermelho que repousa sobre o teclado. As letras douradas quase pulam à vista: Fritz Dobbert. Ajeito o livro no suporte, encontro a página da partitura e posiciono o pé direito no pedal. Examino a clave, os sustenidos e os bemóis. Leio as notas, um compasso por vez, primeiro com a mão direita e depois com a esquerda. O silêncio é quebrado subitamente por um som desarmônico, e quase peço perdão aos ouvintes: ninguém no recinto, meus pais e minhas irmãs em algum outro cômodo do apartamento, os vizinhos. Logo as músicas serão abafadas pelos barulhos do dia a dia, e eu preciso treinar.
Sigo a sequência até que um resquício de semelhança ao ritmo apropriado apareça. Viram? Essa é a peça que tento tocar. Vai melhorar. Ops, errei. Agh, de novo. Agora foi. Repito. Isso. Mais uma vez. Acho que dá para juntar as mãos. Nada mau. Repito, de novo e de novo. Uma hora se passa e começo a brigar com as teclas. Troco de partitura e dedilho uma música que já toco decentemente. Eu sei fazer isso. Minha mãe passa pela sala assoviando, acompanhando o ritmo. Um dia, aquela canção ficará boa como essa. Só depende de mim.
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Florianópolis, 6 de junho de 2025.
Acordo sozinha por hábito, sem o despertador. Pulo da cama e vislumbro o Yamaha P-45: ele continua ali, no cantinho improvisado. Eu fiz isso mesmo. É real.
Encaixo algum estudo na rotina. A evolução é lenta; talvez um professor ajude. Encontro escola de música e instrutor. Mas há dois obstáculos: 15 pedras na vesícula e férias de julho. Marco uma aula experimental para o fim daquele mês, e espero existir até lá para viver este momento.
Passo pelo corredor e, subitamente, enxergo: se a gente mudar a estante de lugar, talvez o piano caiba aqui. Com a fita métrica em mãos, comemoro – o espaço é deveras perfeito. Agora só preciso de um pano de feltro para proteger o teclado. Do vendedor do Mercado Livre, compro um pedaço. Escolho o de cor vermelha.
Sobrevivo à colecistectomia e às férias. A casa onde fica a escola é simpática: herança de uma família de músicos, cheia de quadrinhos e objetos de decoração coloridos e artísticos. O professor, outro queridíssimo, transita entre o clássico e o popular; fecho o contrato. Primeira música? O Melô do Piano, para relembrar. Segunda música? O prelúdio da suíte número 1 de Bach, adaptada ao piano. Não poderia ser diferente.
Treino obstinadamente, mas no meu tempo. Vez ou outra ouço um Que bonito do Alex. Ainda não estava bonito. Ao longo de semanas, uma versão mais estruturada da música finalmente é produzida por minhas mãos, e a toco com olhos marejados.
Eu consegui.
Obcecada pela música, sinto que falta algo na partitura. Ouço novamente o prelúdio no celular, acompanhando os compassos: de fato, aquela versão fora simplificada; uma parte inteira havia sido cortada. Semanas depois, o professor me devolve uma versão completa. Começo a praticar.
Florianópolis, outubro de 2025.
Com o olhar mais atento ao universo do piano, reparo na música que está há tempos na minha lista do Spotify: La Valse d’Amélie. Hum, nada mal para uma segunda obsessão.
A valsa equilibra perfeitamente meu nível técnico em desenvolvimento e a sensação de um desafio possível de ser superado, assim como a suíte. Outras músicas entram como treino: algumas mais fáceis, outras aquém do que ainda posso. A suíte e a valsa permanecem como trabalho em progresso; sempre – sempre – há algo a melhorar. Decorei a valsa inteira e insisto em incorporar detalhes em ambas – nuances que, para mim, fazem diferença. Se deixo de praticar uma por mais tempo do que a outra, já percebo falhas e queda na performance. De repente, o segredo é ser mesmo obcecado por aquilo que se ama e no que se busca excelência.
É junho de 2026: quase um ano de recomeço, e ainda estou “presa” às duas partituras. E eu quero estar ali. Mesmo que nem todo treino seja prazeroso. Mesmo que o mínimo avanço se dê depois de semanas, meses de prática. Afinal, estudar todos os dias não é rotina – a vida acontece, e outras prioridades demandam minha atenção e dedicação.
A caminhada foi longa, mas atender ao chamado da intuição deu frutos no momento certo. Quase 30 anos mais tarde, o piano coube na minha vida de novo – de um jeito que o violino e o violão não convieram.
Cada vez que sento ao piano, dobro o pano de feltro vermelho e dedilho a suíte ou a valsa, um brilho interno se acende. Me sinto mais eu mesma, e conheço mais de mim. Meus filhos, depois de me escutarem repetir a mesma música dezenas de vezes, arriscam tocar o dó-ré-mi-fá em diferentes oitavas. Quando a melodia flui com menos erros, gosto de acreditar que proporciono alguns minutos de beleza para quem ouve.
A próxima música já está escolhida: Comptine d’un autre été, l’après-midi. Digamos que estou com um leve hiperfoco nas composições de Yann Tiersen. Penso também em continuar a aprender a suíte número 1 de Bach. Afinal, o prelúdio é apenas o início de uma obra de ~20 minutos e sete movimentos. E o recomeço de uma pequena grande obsessão que está longe de terminar.
O impulso virou permanência.
FIM



