Gasto de madame
Inventário de um recomeço — 3
Terceira crônica em série. Para ler as anteriores, clique aqui (1) e aqui (2).
Vendi o violino. Mudamos de novo, dentro do mesmo condomínio. Dessa vez, com calma e direito a reforma autoral. Do apartamento, também.
Volta uma viagem aqui, outra ali. Crianças na escola. Permanecia a vontade de expô-los à música. Fixação ou insatisfação interna? Encontrei outro professor queridíssimo que fazia musicalização infantil a domicílio. Afinal, Kai adorava tocar o violão de brinquedo que ganhou num Natal desses. Aisha adorava dançar e cantar. Mal não seria.
Deu certo por um tempo, até que não deu mais. Ora, não é que os instrumentos são irresistíveis? Pasme: para mim.
Será que... consigo aprender violão? Mana, sua louca. Vai fundo.
Nessa altura, a promessa, e o sonho, pareciam distantes. Violão clássico é difícil; comecemos então com o popular. Eu chego lá, no meu tempo.
Instrumento recebido, check. Agora não era mais o arco que produzia o som. O dedilhado diferente exigia uma nova configuração mental e motora. Confusão superada, a próxima missão era gravar onde a falange distal deveria apertar as cordas entre os trastes1 para tocar certa nota. Depois outra. Até nascer um fragmento de canção. E outro. As pontas dos dedos sofrem, mas perduram. Um dia, calejar-se-ão. De um desempenho terrível, alcança-se um regular ao longo de semanas e semanas. Depois de alguma prática, coordenam-se cérebro-mãos-boca. Ainda desafinados, meus três pedaços tentam reproduzir as pequenas e grandes obsessões de Waly Salomão, Jards Macalé e O Rappa.
Música mais apropriada não havia. Pratiquei, evoluí. A família curtiu. Eu curti.
Seis meses de aulas, até que... o trabalho me engoliu. Ou melhor, essa foi uma das desculpas que usei em meu bene(male)fício.
A vida, ah, a vida. Às vezes, ela fica completamente fora de sincronia. O “novo normal” exigiu tempo e energia para colocar o ‘normal’ no lugar. No processo apareceu... a culpa. É fútil. Supérfluo. Perda de tempo. Gasto de madame. Logo para mim, que postava vídeo sobre o valor da arte. Que fazia curso sobre arte. Que tenho mãe pintora e filha apaixonada por arte. Nesse caso, meditação não ajuda; só muita terapia.
Aula cancelada. Amanhã eu toco.
Não toco.
O violão não tem lugar para ficar na sala. Se ficar à vista, eu toco.
Compro um suporte.
Não toco.
Pronto, fica até bonito como decoração.
Ficou.
De enfeite.
⁂
Escrevo este texto de um café. Vindo para cá, a pé, enfrentando vento e chuva incômodos, lembrei-me de quando saía de casa em Toronto, debaixo de frio e neve intensos, só para ver gente, estar na rua. Frequentava cafés com menos assiduidade, pois o orçamento de estudante não permitia tal luxo. Procurando e-mails daquela temporada, encontro uma pérola:
Há 16 anos, época de insatisfação e incerteza quanto à carreira científica, eu pleiteava uma carta de recomendação para um passo diferente que intuía ser o ideal. Num lapso de sinceridade e inocência, escrevi para minha possível recomendadora: Aprendi que não basta gostar do que se faz; é preciso amar essa atividade para ser o melhor. É a única maneira de se engajar de verdade, com mente e coração, e o sucesso será consequência.
Guardadas as devidas proporções de uma decisão profissional e um hobby sem importância2, talvez eu não amasse o violão o suficiente.
Ou talvez fosse mais complexo do que isso.
No fundo, ele era símbolo: o que queria aflorar já existia há muito em mim. Mas foi calado em prol de estudo, carreira, vida fora do país. A cientista de outrora que não se permitia ser artista. Não encontrava o tom. Essa versão não cabia no meu mundo. Ainda.
A semente ficou enterrada, mas viva. Abri mão das aulas de violão, mas não da promessa: um dia, o prelúdio da suite número 1 de Bach haveria de brotar.
1hastes de metal embutidas no braço do violão
2escrever este texto despertou uma vontade absurda de voltar a tocar! Certos (im)pulsos parecem ser uma das muitas almas que nos preenchem reclamando seu direito de existir, como diria Nietzsche.





