Missão
Revelações do interior
Texto escrito em Cambridge, em maio de 2013.
Ela abre a porta e sente o sol banhar seu corpo. O cheiro do dia invade seus pulmões com um despertar aconchegante. Um sentimento capaz de sacudir qualquer remanescente de mau-humor causado pelo frio interminável do longo inverno se instala. Logo que ganha o caminho à beira do rio, inicia a corrida para espantar o estresse do final de semestre. O ritmo é lento, mas constante. O sol continua a se esbaldar em sua pele clara, iluminando cada célula com gosto. Um ciclista simpático e bem educado agradece quando ela cede lugar na estreita passagem. Ali, naquele momento, o pensamento que ia longe se volta para o presente. Começa a perceber o vento sussurrando em seu ouvido, e o impacto de cada um de seus passos na terra batida. Reduz o ritmo. Ouve o suave caminhar dos pássaros sobre as folhas secas que ainda cobrem o chão. Enxerga os pequenos brotos verdes, inundados de sol, que trazem vida aos galhos secos. Shhh, suspiro, silêncio. Ela fica quase sem respirar com medo de atrapalhar o sossego que traz paz e harmonia à cena. A brisa balança seus cabelos e toca suavemente a sua face. O som dos remos tocando a superfície da água do rio é delicado. As pequenas ondas criadas pela passagem do barco quase alcançam seus pés. A água acaricia as pedras cujo tom varia de cinza a marrom. O pássaro de peito alaranjado chega perto, mas voa ao perceber a aproximação de outro humano. O barulho dos carros não incomoda, vira pano de fundo quase imperceptível. Aquele momento é só dela. O mundo, por um instante, se resume ao rio, à terra, às árvores e flores, aos pássaros e às borboletas, e aos pequenos insetos que, contentes, pairam no ar. A quietude da mente se traduz em bem-estar. Os problemas desaparecem. A magia da natureza basta.
E ali, parada, apreciando a paz da solidão, ela fecha os olhos e sente...
O barulho do vento
O som do silêncio
A plenitude da incerteza
O mistério da liberdade
O contentamento da simplicidade
A doçura da saudade
A leveza do pensamento.
As pálpebras se abrem e o olhar repousa demoradamente nas borboletas que brincam com a brisa fresca da primavera, saudando a estação. E então, ela enxerga dentro: ouve o coração.
Naquele instante, entende sua missão e decide abraçá-la com força. Reflete; sente.
O corpo pede água. A alma, plena, sorri.
É hora de voltar para casa e escrever. Para então viver esse momento pela segunda vez.


