Fôlego #1
Entre crônicas, um respiro.
Ecos que reverberaram por aqui ultimamente. Quem sabe inspirem algo positivo por aí também!
Para assistir:
“Always remember that the reason that you initially started working is that there was something inside yourself that you felt that if you could manifest in some way, you would understand more about yourself and how you coexist with the rest of society. I think it’s terribly dangerous for an artist to fulfill other people’s expectations — they generally produce their worst work when they do that.”
"Lembre-se sempre de que a razão pela qual você começou a trabalhar, lá no início, era que havia algo dentro de você que sentia que, se pudesse se manifestar de alguma forma, permitiria que você compreendesse mais sobre si mesmo e sobre como coexistir com o restante da sociedade. Acho terrivelmente perigoso para um artista atender às expectativas dos outros — em geral, é quando produzem seus piores trabalhos."
David Bowie
Para ler: On the move | Sempre em movimento
Autor: Oliver Sacks


Autobiografia emocionante e honesta do neurologista-escritor-professor Oliver Sacks, que revela seu olhar humano para a medicina e a escrita como companheira em sua vida de aventuras.
Trechos:
Carta aos pais enquanto decidia se permaneceria no Canadá ou se se instalaria em San Francisco, EUA (p. 54):
“If I stay in Canada, I will have a reasonably generous salary and time off. I should be able to save, and even to return something of the money which you have lavished on my life for twenty-seven years. As for the other intangible and incalculable things you have given me, I can only repay these by leading a fairly happy and useful life, keeping in touch with you, and seeing you when I can.”
“Se eu ficar no Canadá, terei um salário razoavelmente generoso e tempo livre. Devo conseguir economizar e até devolver uma parte do dinheiro que vocês dedicaram à minha vida por vinte e sete anos. Quanto às outras coisas intangíveis e incalculáveis que vocês me deram, só posso retribuí-las levando uma vida razoavelmente feliz e útil, mantendo contato com vocês e vendo-os sempre que puder.”
Ao descrever os pacientes pós-encefalíticos que atendia no Hospital Beth Abraham, em Nova York, ele relatou (p. 171):
“This sense of the dynamics of illness and life, of the organism or subject striving to survive, sometimes under the strangest and darkest circumstances, was not a viewpoint which had been emphasized when I was a student or resident, nor was it one I found in the current medical literature. But when I saw these postencephalitic patients, it was clearly and overwhelmingly true. What had been dismissed disparagingly by most of my colleagues (“chronic hospitals — you'll never see anything interesting in those places”) revealed itself as the complete opposite: an ideal situation for seeing entire lives unfold.”
“Essa percepção da dinâmica da doença e da vida, do organismo ou do sujeito lutando para sobreviver, às vezes nas circunstâncias mais estranhas e sombrias, não era um ponto de vista enfatizado quando eu era estudante ou residente, nem algo que eu encontrasse na literatura médica atual. Mas, ao observar esses pacientes pós-encefalíticos, isso se tornava clara e avassaladoramente verdadeiro. Aquilo que a maioria dos meus colegas descartava de forma depreciativa (‘hospitais crônicos — você nunca verá nada interessante nesses lugares’) revelou-se exatamente o oposto: um cenário ideal para observar vidas inteiras se desenrolarem.”
Esse entendimento daria origem a um de seus livros mais famosos, que inclusive foi adaptado para o cinema: Awakenings (Tempo de Despertar).
Sobre a escrita (p. 190):
“It seems to me that I discover my thoughts through the act of writing, in the act of writing. Occasionally, a piece comes out perfectly, but more often my writings need extensive pruning and editing because I may express the same thought in many different ways. I can get waylaid by tangential thoughts and associations in mid-sentence, and this leads to parentheses, subordinate clauses, sentences of paragraphic length. I never use one adjective if six seem to me better and, in their cumulative effect, more incisive. I am haunted by the density of reality and try to capture this with (in Clifford Geertz's phrase) “thick description.” All this creates problems of organization. I get intoxicated, sometimes, by the rush of thoughts and am too impatient to put them in the right order. But one needs a cool head, intervals of sobriety, as much as one needs that creative exuberance.”
“Tenho a impressão de que descubro meus pensamentos por meio do ato de escrever, no próprio ato de escrever. Ocasionalmente, um texto sai perfeito, mas, na maioria das vezes, meus escritos exigem um trabalho extenso de poda e edição, porque posso expressar a mesma ideia de muitas maneiras diferentes. Posso me perder em pensamentos e associações tangenciais no meio de uma frase, o que leva a parênteses, orações subordinadas e frases de extensão paragráfica. Nunca uso um adjetivo se seis me parecem melhores e, em seu efeito cumulativo, mais incisivos. Sou assombrado pela densidade da realidade e tento capturá-la com o que Clifford Geertz chamou de ‘descrição densa’. Tudo isso cria problemas de organização. Às vezes me deixo embriagar pelo fluxo de pensamentos e fico impaciente demais para colocá-los na ordem certa. Mas é preciso ter a cabeça fria, momentos de sobriedade, tanto quanto essa exuberância criativa.”
O jeito sensível e autêntico de Oliver Sacks de contar sua história me conquistou; o texto é intercalado com fascinantes relatos de descobertas sobre o cérebro e certas doenças neurológicas, e revela conexões inesperadas entre emoção, razão, o mundo tangível e as relações humanas. Se você tem um tiquinho de interesse em saber como a mente funciona, talvez goste deste e de outros livros do autor.
Alucinações musicais e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu estão entre minhas próximas leituras.
Para sentir:
Catch & Release - Deepend Remix
Publicado em:
Maldito Deus Arrancando Esses Poemas de Minha Cabeça (2015)
The Roominghouse Madrigals (2009)







