Dois momentos
A cidade grande. Todos os dias, a pressa. O barulho, a correria, a carreira. O campo. Todos os dias, a natureza. O silêncio, o sossego, o descanso.
Pressa
São Paulo, julho de 2019.
A chuva é fria; a cidade, cinza
À direita, as grandes estruturas de concreto parecem querer me engolir
À esquerda, o rio morto e malcheiroso; a paisagem triste da miséria escondida nos morros
Vamos, vamos, quero chegar logo!
Meus pés estão gelados
A cabeça está fervendo, cheia de novos conhecimentos
O estômago embola; o acelera-e-para me enjoa
Marginal, margem, fora
É domingo, que demora!
Entardece; luzes borradas pela chuva aparecem
Onde está a esquina familiar? Aquela que dá em casa
Marginal, confusa, farta
Cheia de almas indo e vindo
Respirando o ar mais poluído
Concentra, acelera
Passou Hebraica-Rebouças
Quase, quase, paciência
De repente, um giro à direita
Está lá o farol que eu conheço
Agora é só mais do mesmo
Chove, chove, desço correndo
Mais um minuto, estou chegando
Abro a porta, e encontro
A razão dos meus dias; meu sol, minha alegria
É por vocês, meus filhos, a quem quero inspirar
É por mim, meus filhos, a quem quero realizar
É pelo mundo, meus filhos, a quem quero servir, mover, surpreender, maravilhar
Barulho e silêncio
São Paulo / Joanópolis, outubro de 2019.
Barulho. Lá longe, aqui perto, aqui dentro.
Da buzina, do bar da esquina, da lista de afazeres.
Do avião, da ambulância, da rede social.
Do terrorismo, do lava a jato do posto vizinho, da imagem abatida no espelho.
A vida moderna cansa. A cidade grande cansa. No meio de tanto barulho, até a busca pelo autoconhecimento e pelo resgate da essência cansa. O reinventar-se, de novo e de novo, cansa. Em tempos de cansaço extremo, ouso aconselhar:
Saia do concreto.
Saia da rotina.
Saia do previsível.
Silêncio é mato. Pé na água do mar. Banho de cachoeira. Trilha.
É apreciar o vento, a chuva, o verde, o sol.
É esquecer o despertador e acordar com a claridade do dia.
É pegar um caderno e anotar sensações. Sem tecnologias.
É energizar-se com a risada de uma criança de 2 anos ao observar um sapo pular.
É alimentar-se da surpresa de uma criança de 4 anos ao observar um céu absolutamente estrelado, sem interferência das luzes artificiais, e um horizonte próximo iluminado apenas por vaga-lumes.
É sentir a magia do pé na grama, do cheiro do roseiral, do sabor da comida que vem da horta.
É entregar-se ao descanso ouvindo seu corpo e sua mente, que agora consegue focar no que realmente importa.
Crie memórias de sensações que, de tão vívidas, pareçam tocáveis.
Revisite-as sempre que o barulho de longe, de perto, e de dentro esteja tão confuso e cansativo que o faça desviar da sua natureza.
É no silêncio que consigo me ouvir melhor.



Daiana, algumas pessoas tem a falsa impressão de que fazer poema é difícil, no mínimo, complexo e cheio de técnicas.
Não é como penso.
Construir poemas é primeiro enxergar poesia. Essa é a parte mais difícil. Porque enxergar a beleza hoje é difícil, silenciar para enxergar o belo é incrivelmente incomum, infelizmente.
Você faz isso muito bem. O mais bonito da poesia, eu penso, é quando ela está assim flutuando dentro das pessoas que não costumam escrever poemas e escrevem.
Obrigada.
Até breve!